Mostrar mensagens com a etiqueta Creedence Clearwater Revival. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Creedence Clearwater Revival. Mostrar todas as mensagens

sábado, 16 de outubro de 2010

Creedence Clearwater Revival ~ A história de um grupo de "swamp rock" (Parte 2)

(Continuação)

Willy And The Poor Boys

Frenéticos, em Outubro, põem à venda o single Down On The Corner/Fortunate Son que atingirá o #3 das tabelas nacionais e que anunciava a saída em Novembro de mais um novo trabalho: Willy And The Poor Boys.  John Fogerty, tal como a maioria dos estados-unidenses, radicaliza as suas posições dando eco ao que vai na alma dos blue-collar: Fortunate Son com toda a sua retórica blue-collar (Some folks are born made to wave the flag/ Ooh, they're red, white and blue/ And when the band plays hail to the chief/ Ooh, they point the cannon at you, lord/ It ain't me, it ain't me, I ain't no senator's son, son/ It ain't me, it ain't me; I ain't no fortunate one, no) acabará por ser alvo da ironia da situação de ele nunca ter ido parar ao Vietname mesmo não sendo filho de um qualquer senador.

Down On The Corner é o poderoso tema de abertura que já vinha a ser tocado pelas rádios desde Outubro e aonde, de acordo com a foto da capa do álbum, a banda estava numa de “ter uns tempos agradáveis enquanto ganhava uns trocados” (Down on the corner, out in the street/ Willy and the poorboys are playin'/ Bring a nickel; tap your feet), opondo-se de algum modo ao pessimismo do “beco sem saída” sugerido em Lodi (do álbum Green River).  Por falar em capa: o instrumental Poorboy Shuffle (e aqui vai a sua introdução vocalizada quase imperceptivelmente: Poorboy shuffle. Ok. Is it workin'?/ You heard it. Ha ha ha!/ Hey rooster! Hey, rooster!) é o resultado dessa sessão fotográfica!(16)  It Came Out Of The Sky  é um r’n’b  mordaz sobre os EUA (Spiro came and made a speech about raising the mars tax/ The vatican said, woe, the lord has come/ Hollywood rushed out an epic film/ And ronnie the popular said it was a communist plot) – Spiro é o vice de Nixon, o Agnew, e “ronnie the popular” é o então governador da Califórnia e futuro presidente, Ronald Reagan.  Cotton Fields e The Midnight Special são as habituais covers mas sempre devidamente passadas ao som CCR. O mesmo se poderia dizer de Side O' The Road, com todas as suas referências a Green Onions dos Booker T. & the M.G.  Effigy é – estarei eu enganado? – Jimi Hendrix... com uma pitada anti-Nixon na sua letra (Last night/ I saw the fire spreadin' to/ The palace door/ Silent majority/ Weren't keepin' quiet/ Anymore)(17).  Feelin' Blue, com a sua guitarra funk e ambiente bluesy, reflecte no seu refrão (Feelin' blue, blue, blue, blue, blue/ Feelin' blue, blue, blue, blue, blue/ Feelin' blue, blue, blue, blue, blue/ I'm feelin' blue. I'm feelin' blue) o que lhe vai na alma e Don't Look Now é mais um “discursoblue-collar (Who will take the coal from the mine?/ Who will take the salt from the earth?/ Who'll take a leaf and grow it to a tree?/ Don't look now, it ain't you or me).

Com total produção, uma vez mais, de John, o álbum chegará a #3 nas tabelas nacionais e a #28 na do mercado afro-americano.

Manifestação anti-intervenção no Vietname

«Tal como os Creedence tiveram de percorrer um longo
caminho nos seus primeiros oito anos, assim percorreram
uma distância igual desde o seu primeiro disco. Com
demasiada frequência, um grupo emerge com um excelente
álbum que prova ser a consumação do seu talento e depois
desaparece. (...) os seus álbuns têm melhorado a cada
novo lançamento. Willy And The Poor Boys é até agora o
melhor. » – Alec Dubro(18)

«A capa do álbum Willy and the Poorboys deu expressão
visual ao mito. Ela retrata os CCR numa secundária rua real
de Oakland, a tocarem instrumentos da profunda raíz America:
harmónica, “tábua de lavar”, baixo “gutbucket”. A música no
álbum deu substância à substância da exigência; “Down on the
Corner” e “Don't Look Now”, de Fogerty, misturam-se suave-
mente nos tradicionais “Cotton Fields” e “Midnight Special”
de Leadbelly.»Craig Werner(19)

«(...) se o rock fosse apenas uma coisa, e se essa única coisa
fosse fúria pura (talvez com um específico ânimo de classe),
então “Fortunate Son” seria a sua destilação platónica. John
Fogerty, que escreveu essa canção no dia em que teve os seus
papéis de desmobilização final do exército dos EUA, rapou as
líricas (que poderiam ser subintituladas como The Dan Quayle
 Story) com uma voz cheia de bílis e usou a sua guitarra como
uma arma para metralhar todos o que sempre abusaram de
 um privilégio.» – Dave Marsh(20)

«Por uma vez, sentindo-se mais revoltado e exuberante do
que em Green River, Willy and the Poorboys inclui duas
das mais explícitas declarações políticas de Fogerty.
“Fortunate Son” convoca a uma justa raiva sobre as cabeças
dos que “levantam a bandeira para provar que são vermelho,
branco e azul”. Fogerty esboça um cenário aonde a banda
toca “Saudações ao chefe” como acompanhamento,
enquanto as pessoas que herdaram “os olhos cobertos de
estrelas” tal como a sua riqueza, enviam os rapazes pobres
para a morte. O refrão torna Fogerty claro, “Não sou eu”,
grita ele. “Eu não sou um filho afortunado”. Ou como ele
disse em 1969: “Eu vejo as coisas através dos olhos da
classe baixa. Se te sentares algures e pensares sobre todo
esse dinheiro, nunca poderás escrever uma canção acerca
de aonde vieste.”» – Craig Werner(21)

Em 1969, os CCR tinham disponibilizado ao público três álbuns com um total de mais de uma hora e trinta e oito minutos inesquecíveis, enclausurados em temas como Born On The Bayou, Proud Mary, Bad Moon Rising, Lodi, Green River, Commotion, Down On The Corner, e Fortunate Son – só para falar daqueles que todos conhecem e – que reunidos dariam um álbum que seria um verdadeiro marco na história do rock.

Lembro-me de algures nesse ano, em Luanda, passar todas as tardes a ouvir uma banda de garagem a ensaiar essas canções – eram inevitáveis para quem se propunha a ter alguma “credibilidade” nas festas dos liceus e colégios... muito mais do que outros temas que lhes ouvia ensaiar.  São eles e essas tardes que me vêm à memória, sempre que ouço os Creedence Clearwater Revival.


E O Final...

Os três últimos álbuns dos CCR
(Cosmo's Factory ~ Pendulum ~ Mardi Gras)

Durante os restantes anos da sua existência, os CCR irão lançar mais três álbuns de originais: o primeiro, enquanto quarteto, Cosmo's Factory, e o segundo, já como quarteto “virtual”, Pendulum, serão publicados em 1970, respectivamente em Julho e Dezembro desse ano, e por fim, já em Abril de 1972 e como trio, o derradeiro Mardi Gras.  Deste, em que John Fogerty encosta os restantes membros à parede e lhes exige que cada um deles contribua com três músicas, o que há para dizer é que é um trabalho fraquíssimo em que só sobressai uma das três composições de John, Someday Never Comes que, com Tearin' Up The Country de Doug Clifford, daria origem em Maio ao segundo single extraído do álbum – o primeiro, reunira em Julho de 1971, a dupla Sweet Hitch-Hiker/Door To Door.

... já como trio.

«No futuro, Mardi Gras poderá vir a ser conhecido como
Fogerty’s Revenge.  Depois de todas as censuras deste
egoísmo, e após as denúncias publicadas dos seus par-
ceiros acerca de se ter apoderado do show, ele fez o que
eu nunca pensei que faria: permitir aos seus companhei-
ros exporem-se em público.  Ceder seis dos dez temas do
novo album, ao baterista Doug Clifford e ao baixista Stu
Cook pode ter sido um convite ao suicídio artístico para
eles, mas isso prova que John estava certo desde sempre.
Comercialmente, deixa-o a tentar responder à nova per-
gunta de $64 sobre os Creedence Clearwater Revival:
será que o grupo vai ser capaz de sobreviver à catástrofe?
E quem realmente se importa?» – Jon Landau(22)

Pendulum é um álbum interessante e que aponta para novos rumos que nunca se vieram a concretizar.  Os irredutíveis do então já velho swamp rock terão de se contentar com Have You Ever Seen The Rain? e o seu lado B, no single que será publicado em Janeiro de 1971, Hey Tonight e, com algum esforço, quiçá Molina.  Nos restantes temas, John leva a banda por caminhos que os fazem aproximar perigosamente dos sons que marcavam o início da década, desde os afro-americanos, a grande sou musicl e o funk, com Chameleon e Born to Move, aos do muito “britishprog, com Rude Awakening #2.  Para trás ficam algumas propostas talvez mais próximas do rumo que poderiam vir a seguir: um heavy-blues no tema de abertura, Pagan Baby, um pseudo-folk com um toque de Caraíbas em Sailor's Lament, e duas baladas pop que, de algum modo, me parece já tê-las ouvida algures aos Blood, Sweat & Tears ou aos Chicago, (Wish I Could) Hideaway e It's Just A Thought.

«Parece-me que de algum modo os Creedence ficaram
prisioneiros do ciclo vicioso de tentarem arduamente
agradar a um público que já compra mais dos seus dis-
cos do que o fazem de quaisquer outros.  Em Pendulum
eles tentaram provar que têm classe. Mas eles já tinham
provado isso quando gravaram “Proud Mary”.» – Jon
Landau(23)

Cosmo's Factory, ao contrário dos outros dois, é um bom trabalho do grupo e o último a reter na sua discografia embora, sem dúvida alguma, de nível inferior aos seus dois últimos pares de 1969.  Dele já tinham sido extraídos em Janeiro, o single Travelin' Band/Who'll Stop The Rain, e em Abril,  Run Through The Jungle/Up Around the Bend. que atingirão, respectivamente, o #2 e #4 nas tabelas nacionais.  Pouco depois da saída do álbum, ainda será publicado o single Lookin' Out My Back Door/Long As I Can See the Light que subirá até ao #2 da Billboard Hot 100.

Run Through The Jungle, que encerra o lado A, com a sua introdução áspera e uma melodia repetitiva, vagamente cortada por uma harmónica lancinante, e que toda a gente associou à guerra do Vietname, é o ponto alto do disco.

«Acho que muita gente pensou isso por causa da época,
mas eu estava a falar da América e da proliferação de
armas, registadas ou não. Eu sou um caçador, não sou
um anti-armas, apenas pensava que as pessoas se en-
contravam satisfeitas demais com armas - e havia dema-
siadas armas sem controlo – o que era realmente peri-
goso, e agora ainda é pior.» – John Fogerty(24)

«Três minutos de swamp rock assustador que soa como
se tivesse sido gravada numa manga de aeroporto activa,
Run Through the Jungle está cheia de berros crus, de
uma linha de baixo que parece determinada a cortar o
riff da guitarra que se diverte, no seu coração, e de uma
letra tão aterradora que nos faz sentir contentes quando
se torna mais vaga do que específica.» – David Marsh(25)

O tema de abertura, Ramble Tamble, é extraordinário nas suas mudanças de ritmo – quase se pode falar em três músicas diferentes – e um pouco heavy demais para os habituais cânones CCR.  E a letra repesca as habituais preocupações blue-collar (There's garbage on the sidewalk/ Highways in the back yard/ Police on the corner/ Mortgage on the car).  Entre duas covers (Before You Accuse Me, de Bo Diddley, e Ooby Dooby, de Roy Orbinson) fica Travelin' Band (Listen to the radio, talkin' 'bout the last show/ Someone got excited, had to call the State Militia/ Wanna move) a soar a Little Richard.  Lookin' Out My Back Door, é o momento “dope” da carreira de Fogerty (Tambourines and elephants are playing in the band/ Won't you take a ride on the flyin' spoon?), mesmo que ele reclame que ela é uma canção para o seu filho: essa não vale! Já Lennon a tinha utilizado para a LSD (Lucy In The Sky With Diamonds).  O lado B abre com Up Around the Bend, um número tipicamente CCR (There's a place up ahead and I'm goin'/ Just as fast as my feet can fly/ Come away, come away if you're goin'/ Leave the sinkin' ship behind).  My Baby Left Me, é a segunda cover a reter de Cosmo's Factory – a primeira é, sem dúvida alguma, essa versão primária e pulsante da sofisticada I Heard It Through The Grapevine, imortalizada por Marvin Gaye, que virá a aparecer no alucinante final deste trabalho do grupo, em que encontram duas das principais músicas de “segunda linha” do álbum (as de “primeira linha”: Ramble Tamble e Run Through The Jungle, para não falar da excepcional versão de I Heard It Through The Grapevine): Who'll Stop The Rain e a extraordinária Long as I Can See the Light.  Um momento final perfeito para este LP... Otis Redding, evidentemente, com uma letra melancólica a não ultrapassar o limite exigido (Put a candle in the window, 'cause I feel I've got to move/ Though I'm going, going, I'll be coming home soon/ Long as I can see the light).

«Já deveria ser óbvio que os Creedence Clearwater Re-
vival é uma grande banda de rock and roll. Cosmo’s Fac-
tory, quinto álbum do grupo, é uma outra boa razão do
porquê. (...) É um outro maldito álbum por um grupo que
se vai ver por cá por um longo tempo.» – John Grissim(26)

A 9 de Novembro de 1972, a Rolling Stone anunciava o fim dos Creedence Clearwater Revival.

Excerto da Rolling Stone, 9 de Novembro de 1972

«Se Fogerty é um dos guitarristas de primeira do rock
and roll, é também um dos seus melhores letristas. As
suas raízes operárias, muitas vezes dão cor aos temas
que ele aborda em música. Por exemplo, a sua famosa
canção anti-guerra “Fortunate Son” distingue-se
de muitas das canções anti-guerra do rock da época,
que ofereciam soluções simplistas para os problemas
complexos da guerra e paz. O discurso de Fogerty na
canção não é tanto o de quem protesta em marchas
contra a guerra mas de um irritado bluecollar realista
que vê a guerra do Vietname como a guerra dos ricos
e a luta dos pobres. Esta populista, realista mensagem
é também evidente na gema de dois minutos “Don't Look
Now” (um extracto do álbum Willy and the Poor Boys).
A letra da canção faz notar que a sociedade assenta em
simples trabalhadores para lavrar os campos e extrair
o carvão, e permite-lhes que vivam na pobreza e fome
Musicians and composers of the 20th century

_______________________

(1)   GOLDBERG, Michael. “Will Creedence Clearwater ever be revived?”, Rolling Stone, Nr. 377, September 2, 1982. pp.41;
(2)   HENKE, James. “John Fogerty”, Rolling Stone, Nr. 512, November 5th – December 10th, 1987. pp.146;
(3)   HENKE, James. “John Fogerty”, Rolling Stone, Nr. 512, November 5th – December 10th, 1987. pp.148;
(4)   M. JUNIOR, Chris. Creedence Clearwater Revival: Three of a kind. Goldmine. 26 December 2009;
(5)   LEVITIN, Daniel J. John Fogerty Interview. Audio. January, 1998;
(6)   THOMPSON, Art. “John Fogerty”. Guitar Player, February 2008. pp.95;
(7)   A.S. Rolling Stone. Nr. 931, September 18, 2003. pp.53;
(8)   BORDOWITZ, Hank. “Bad Moon Rising: The Unauthorized History of Creedence Clearwater Revival”. 2007. pp. 54;
(9)   WADHAMS, Wayne. “Americana, The View From L.A., Inside the Hits: The Seduction of a Rock and Roll Generation”. 2001. pp.295/296;
(10)  MARSH, Dave. “The Heart Of Rock & Soul: The 1001 Greatest Singles Ever Made”. 1999. pp.89;
(11)  KLEIN, Joshua. John Fogerty. Pitchfork. November 27, 2007;
(12)  M. JUNIOR, Chris. Creedence Clearwater Revival: Three of a kind. Goldmine. 26 December 2009;
(13)  MIROFF, Bruce. Rolling Stone, Nr. 44, October 18, 1969. pp.38;
(14) THOMPSON, Art. “John Fogerty”. Guitar Player, February 2008. pp.95;
(15) WERNER, Craig. “A Change Is Gonna Come. Music, Race & The Soul Of America; Love or Confusion?”. 1998. pp.155/156;
(16) DUBRO, Alec. “Willy And The Poor Boys”. Rolling Stone. Nr. 50, January 21, 1970. pp.70;
(17) Por uma qualquer partida do destino, Willy And The Poor Boys é posto à venda nos EUA no dia 2 de Novembro, um dia antes de um famoso discurso de Richard Nixon em que ele convocou a “maioria silenciosa” a se manifestar a favor das suas políticas na intervenção militar dos EUA na Indochina;
(18) DUBRO, Alec. “Willy And The Poor Boys”. Rolling Stone. Nr. 50, January 21, 1970. pp.70;
(19) WERNER, Craig. “A Change Is Gonna Come. Music, Race & The Soul Of America; Love or Confusion?”. 1998. pp.152;
(20) MARSH, Dave. “The Heart Of Rock & Soul: The 1001 Greatest Singles Ever Made”. 1999. pp.171/172;
(21) WERNER, Craig. “A Change Is Gonna Come. Music, Race & The Soul Of America; Love or Confusion?”. 1998. pp.156;
(22) LANDAU, Jon. Rolling Stone. Nr. 109, May 25, 1972. pp.63;
(23) LANDAU, Jon. Rolling Stone. Nr. 75, February 4, 1971. pp.55;
(25) MARSH, Dave. “The Heart Of Rock & Soul: The 1001 Greatest Singles Ever Made”. 1999. pp.361;
(26) GRISSIM, John. Rolling Stone. Nr. 65, September 3, 1970. pp.42;
(27) Vários. Musicians and composers of the 20th century”. Editor: Alfred W. Cramer. 2009 pp.458.

Creedence Clearwater Revival ~ A história de um grupo de "swamp rock" (Parte 1)

Quando em Outubro de 1972, a Fantasy Records anuncia o fim do seu mais lucrativo grupo, os Creedence Clearwater Revival, apenas fizera oficialmente aquilo que já se sabia de facto, ou o que pelo menos se esperava que viesse a acontecer desde a separação dos irmãos Fogerty, Tom e John, a meio da gravação do álbum Pendulum e que viria a ser confirmado pela própria etiqueta em Fevereiro de 1971.

Excerto da Rolling Stone, de 4 de Março de 1971

O excessivo controlo exercido pela forte personalidade de John, nunca tinha sido bem aceite pelos restantes membros do grupo (Doug Clifford e Stu Cook) mas em especial pelo seu irmão que em tempos liderara o grupo quer porque fosse o mais velho (cerca de quatro anos mais), quer porque então era o único que não tinha vergonha de cantar.

«Antes de serem grandes,  os Creedence já estavam
Juntos há nove anos e em sessenta por cento desse
tempo, eu fui o vocalista líder. Eu não era um ditador
mas mais um líder e então no que acabei aos olhos
dos nossos fãs – apenas no gajo que estava para ali
e tocava guitarra ritmo.» – Tom Fogerty(1)

Creedence Clearwater Revival


O Começo...

Quando eles ainda eram apenas um dos poucos grupos que tocava rock’n’roll na zona de El Cerrito, um subúrbio de São Francisco, e se chamavam de Tommy Fogerty & The Blue Velvets, uma editora local, a Orchestra, permitir-lhes-á lançar três singles (Come On Baby/Oh! My Love e um mês depois, Have You Ever Been Lonely/Bonita, e em Junho de 1962, Yes You Did/Now You're Not Mine) sem qualquer notoriedade.

Ao assistirem a um programa de televisão no canal público, o Channel 9, os irmãos Fogerty descobrem a existência de uma editora relativamente perto da sua zona que tinha conseguido um sucesso comercial a nível nacional e, por instigação de John, enviam uma gravação com alguns dos seus temas instrumentais.  O co-fundador da etiqueta, Max Weiss, aceita-os com a condição de passarem a compor temas cantados e de o grupo mudar de nome.  Passam a The Visions e, posteriormente, por iniciativa do próprio Weiss a The Golliwogs, porque esse nome lhe soava mais “british” e a época era a da chamada “british invasion”.  Sete singles foram lançados sob este novo nome – um em 1964: Don't Tell Me No Lies/Little Girl (Does Your Mama Know) (Fantasy 590); três em 1965: You Came Walking/Where You Been (Fantasy 597), You Can't Be True/You Got Nothin' On Me (Fantasy 599), e Brown Eyed Girl/You Better Be Careful (Scorpio 404); dois em 1966: Fight Fire/Fragile Child (Scorpio 405) e Walking On Water/You Better Get It Before It Gets You (Scorpio 408); e, por fim, um em 1967: Porterville/Call It Pretending (Scorpio 412).

No verão de 1967, John e Doug estavam livres do serviço militar que tinham cumprido como reservistas, nos últimos seis meses.  Tom, por sua vez, estava desempregado e desenrascava-se com pequenos biscates, e Stu terminara recentemente o curso de direito a que tinha sido obrigado pelo pai.  Os irmãos Weiss, Max e Sol, fartos do negócio dos discos, acabam por vender a Fantasy a um dos seus funcionários, Saul Zaentz, e a um grupo de investidores liderados por ele.

Por esta altura, a Bay Area (de um modo geral, toda a zona metropolitana que rodeia São Francisco) era o centro nevrálgico da chamada Contracultura e da difusão, por intermédio de “rádios livres” e salas de espectáculos alternativas como o Fillmore Auditorium (mais tarde, Fillmore West), de uma nova roupagem de rock chamada de psicadélica e cujos principais nomes eram precisamente as bandas de Frisco, como os Grateful Dead, Great Society, Jefferson Airplane, Quicksilver Messenger Service, Big Brother and the Holding Company, etc, etc.

Saul conhecia bem John Fogerty do tempo em que este tinha sido moço de recados da Fantasy, e gostava do som do grupo mas achava-os desfasados dos novos gostos musicais, assim manteve-os na etiqueta, sugerindo-lhe contudo que não só tentassem adaptar-se aos novos gostos mas também que adoptassem um nome mais actual.

«O que aconteceu é que musicalmente tínhamos um
tipo de música um pouco diferente da que grupos
como os Dead e os Jefferson Airplane faziam. O
nosso amor na música era a soul music – Stax e
tudo isso. Tínhamos tendência a tocar números
curtos, de up-beat, porque nos considerávamos
uma banda de  dança.» – John Fogerty(2)

Credence Nuball era o nome de um amigo de Tom e este achava-o fora do normal porque não só não conhecia ninguém com tal nome como lhe fazia lembrar a palava credo (creed); Clear water fazia parte do texto de um anúncio de uma cerveja e tinha algo de natureza pura, um tema híper central para uma parte da Contracultura, os hippies; e revival surge do desejo de renascimento manifestada pelos membros do grupo, e é assim que chegam ao nome de Creedence Clearwater Revival.

Creedence Clearwater Revival

Em Outubro de 1968 entram no Coast Recorders Studios de São Francisco, para darem início ao seu primeiro LP, Creedence Clearwater Revival, que virá a ser posto à venda em Julho desse ano.  O material que registam é essencialmente composto por covers de clássicos de rhythm'n'blues que faziam parte do seu reportório ao vivo: I Put A Spell On You, do inflamado extravagante Screamin' Jay Hawkins e um dos favoritos de Saul;  uma versão de cerca de oito minutos e meio da Suzie Q de Dale Hawkins e que incluía uma sequência num solo de guitarra, de um extracto de Smokestack Lightning, do guitarrista de blues Howlin' Wolf;  e Ninety-Nine And A Half (Won't Do) do então já famoso cantor de soul music, Wilson Pickett.  Surgem ainda duas novas versões de músicas compostas ainda enquanto eram The Golliwogs, Porterville (do último single daquela formação, em 1967) e Walking On The Water (de um arranjo do tema composto pelos irmãos Fogerty em 1966, Walking On Water), e três novos títulos compostos por John: The Working Man, Get Down Woman e Gloomy.

O álbum, produzido pelo próprio Saul Zaentz (o único que não terá produção de John), conseguirá atingir o #52 nas tabelas nacionais, tendo dado origem a dois singles: Suzie Q, que será dividida por ambos os lados do mini disco e que atingiria #11 a nível nacional, e I Put A Spell On You/Walking On The Water, que subirá a #58.

De todos os trabalhos do grupo, este é sem dúvida alguma o mais incaracterístico, notando-se vestígios de influências psicadélicas (em Suzi Q, Gloomy e Walking On The Water) resultantes das cedências à moda que a sua sobrevivência enquanto grupo do circuito ao vivo, exigia, mas também as primeiras tentativas de erguer um swamp sound, do qual viriam a ser os seus mais ilustres representantes, ligado essencialmente a essa temática muitas vezes não reconhecida neles, a da Americana, especialmente via blue-collar (essa parte da classe trabalhadora caracterizada pelos chamados três ds: dirty , demanding, e dangerous, ou seja, ao trabalho sujo, exigente e perigoso) e neste álbum, já presente em Porterville (They came and took my dad away to serve some time/ But it was me that paid the debt he left behind/ Folks said I was full of sin, because I was the next of kin/ I don't care! I don't care!, ou mais à frente: Folks were out one night to put me up a fence/ And you can guess that I've been running ever since/ Aingt no one that's 'bout to help/ And I'll keep on, I tell myself/ I don't care! I don't care!) e em The Working Man (I aingt never been in trouble/ I aingt got the time/ I don't mess around with magic, child/ What I got is mine) aonde se advinha uma Louisiana presente desde a pronúncia nas suas vocalizações às referências ao vodu (magic), associada ao “discursoblue-collar (Every Friday, well, that's when I get paid/ Don't take me on Friday, Lord/ 'cause that's when I get paid/ Let me die on Saturday night, ooh/ Before Sunday gets my head).

«(...) enquanto marchava, comecei a escrever a canção
que se transformou em “Porterville”. Trabalhava nela
há alguns dias e pensei, “Meu Deus, isto é mais fixe do
que 'Oh, baby, I love you'.”  Aquilo era uma estória, um
conto, e eu Uau, isso poderá ser algo de bom”. Quando
saí do exército terminei a melodia. Em nenhuma parte
da música menciono Porterville, e eu nem tinha crescido
em Porterville. Isso só parecia colocar um tempo e um
lugar, uma essência, na canção o que era fixe, pelo
menos para mim.  A canção é semi-autobiográfica,
de certeza sobre a maneira como me sentia em relação
a algumas coisas na vida.» – John Fogerty(3)

«“Tivémos a sorte de ter algum sucesso mas ainda não
era 100 por cento nosso”, diz Clifford.  Tivémos um
single com sucesso mas não era um single original. O
álbum subiu e o nosso segundo single, basicamente,
acabou por falhar.”  O que levou a que na gravação do
segundo álbum dos CCR, diz Clifford, a haver a pressão
de ter um single que fosse uma composição original.
“Nós sabíamos que se isso não acontecesse no próximo
álbum, provavelmente, seríamos um dos muitos com
um-sucesso-apenas”.»(4)

Cartaz do Fillmore, 2 a 7 de Julho de 1968


O Extraordinário Ano de 1969

Bayou Country

Poucos meses depois do seu primeiro trabalho ter saído, o grupo está uma vez mais em estúdio (nos RCA Studios de Los Angeles) para um novo álbum que há-de vir a sair em Janeiro de 1969, com o significativo título de Bayou Country – uma referência evidente ao universo criado pelo curso final, o conhecido Delta, do rio Mississipi.

Pela primeira vez, John assume o papel de produtor, desta vez, com a ajuda do engenheiro de som Hank McGill.  O processo normal de gravação das canções, que se repetiria ao longo das suas presenças em estúdio, passava pelo registo das partes instrumentais dos restantes membros tendo como base uma composição feita com a guitarra por John.  Numa entrevista dada a Daniel J. Levitin, para a defunta revista Audio, John explica todo o processo: «Eu escrevia a música e, em seguida, o produtor que existia em mim assumia o controlo e escrevia os arranjos e então mostrava aos outros como eles deveriam fazer. (...) Digamos que descobiste como seria com a guitarra; então terias de encontrar a parte do baixo, e a da guitarra ritmo, e a da bateria, que a completam, porque ainda tens uma infinidade de opções que podem estragar a tua escolha inicial (...). Então, eu explicava-lhes o que deveriam tocar. (...) Recordo-me de que (...) lhe estava a mostrar [ao baixista Stu Cook] uma ou duas notas de cada vez, para que ele chegasse até aquilo que ele julgava ter inventado. Eu dizia, “bom, experimenta fazer 'do doo' [e canta as duas primeiras notas duma linha de baixo]” e ele tocava-as, então eu dizia-lhe, “bom, que tal da próxima vez fazeres antes isto...” Então, quando ele o conseguia, julgava que as tinha inventado mas eu já as tinha descoberto um par de semanas antes.»(5)  A partir da contribuição do grupo, John adicionava a sua (habitual) parte vocal e, quando assim o julgava necessário, outras partes instrumentais geralmente criadas e tocadas por ele com instrumentos que não faziam parte dos que o resto do grupo dominava: harmónica, piano, pandeiro, replicações de vocalizações e de instrumentos, etc.

O álbum atingirá um #7 nas tabelas nacionais e um (quase fenómeno!) #41 nas tabelas de Rhythm’n’Blues da Billboard, esse espelho do mercado discográfico afro-americano, mas nada para estranhar: dois anos mais tarde, Ike & Tina Turner dar-lhes-ão uma nova versão de Proud Mary, numa inversão do habitual esquema dos intérpretes brancos fazerem covers das canções de intérpretes negros.

Good Golly Miss Molly, de Little Richard para quem não o sabe, bem poderia passar por ser também, como o resto do material, da autoria de John Fogerty de tão pessoal que é a sua interpretação da mesma.  Ao longo dos trinta e quatro minutos (e mais uma dezena de segundos...) que duram as suas sete fachas, John, que raramente terá passado além fronteiras da Bay Area, constrói histórias sobre o universo crioulo do “grande rio” como se nunca tivesse conhecido outro horizonte.  Da conversa de pai para filho que, imagino-a com ele sentado num caixote de madeira de bourbon whiskey, algures em terra firme mas rodeada por pântanos de águas verdes aonde caem as lianas das árvores, em Born On The Bayou (Now, when I was just a little boy/ Standing to my Daddy's knee/ My poppa said, Son, don't let the man get you/ Do what he done to me), passando em Bootleg à glorificação da condição natural de fora-da-lei das suas gentes (Take you a glass of water/ Make it against the law, e mais adiante Suzy maybe give you some cherry pie/But Lord, that ain't no fun/ Better you grab it when she ain't looking/ 'Cause you know you'd rather have it on the run), para terminar com o apelo a que todos tenhamos bons momentos, em Keep On Chooglin' (Maybe you don't understand it/ But if you're a natural man/ You got to ball and have a good time/ And that's what I call choogling), há em andamento uma construção desse mítico território bayou, mas a pérola aqui é, sem qualquer margem para dúvidas, Proud Mary (Cleaned a lot of plates in Memphis/ Pumped a lot of pane down in New Orleans/ But I never saw the good side of the city/ Until I hitched a ride on a river boat queen) que, segundo John Fogerty, terá sido escrita «imediatamente depois de ter lido o aviso de que tinha sido dispensado dos reservistas do exército.»(6)

«Eu vou dizer-te como é que surgiu “Born on the Bayou”
Éramos o sétimo acto no Avalon [em São Francisco]
Tivémos o último teste de som, e eu comecei a tocar um
acorde E7 (...).  Um gajo do palco disse-nos para
pararmos com isso, do género “De qualquer modo vocês
não vão a lugar nenhum.” Lembro-me de lhe ter dito,
“Dá-me um ano, Buster, e eu mostrar-te-ei.” Eu tinha o
riff e a atitude na cabeça, e às 2 da manhã nasceu “Born
on the Bayou”.» – John Fogerty(7)

«No momento em que cheguei a “rolling, rolling, rolling
on the river” eu sabia que tinha escrito a minha melhor
canção. Vibrava dentro de mim. Quando a ensaiámos, eu
senti-me como Cole Porter.» – John Fogerty(8)

«A canção é sugestiva em ar fresco e liberdade, e evoca o
grande céu do poderoso Mississippi, mesmo sabendo que
Fogerty nunca o tenha visto! Seguindo o seu nariz de
compositor, ele começou a escrever na veia do que mais
tarde viria a ser chamado de “swamp rock”, que incluía
histórias e imagens da América rural, em especial do Sul.
As suas melhores músicas combinam a simplicidade do
sólido estilo pop do rockabilly com os blues do Delta, uma
pitada de country e outra de r&b.  (...)  Com a articulação
dum Negro Sulista, mestre de blues, ele diz, “wolkin’ for
the main”, “big wheel keep on toirnin’, praod Mara keep
on boirnin.”» – Wayne Wadhams(9)

«Fogerty consegue-o (...), porque se saiu com um riff e
um ritmo que rolam tão poderosos em si, quanto o
Mississipi. A abundância de enchente da guitarra (ritmo)
e da bateria, a força da linha do baixo e a fluidez da
guitarra solo justifica cada afectação vocal e lírica. No
final, a história parece natural e eterna, o que talvez
signifique que, apesar de tudo, essas estudadas qualidades
não são apenas afectações.» – Dave Marsh(10)

A ride on a river boat queen…

A Fantasy, de todo um leque de hipóteses e confirmando a sua característica quase amadora («nós estamos na etiqueta mais pequena do mundo. Não há dinheiro por detrás de nós, nós nem temos agente, nem relações públicas. Nós, basicamente, não temos nenhuma das habituais máquinas de fazer estrelas»(11)), acabará por apenas fazer sair um 45rpm com as melhores canções – e quase únicas razões para a compra – do álbum, Proud Mary/Born On The Bayou que, evidentemente, conseguirá subir até ao #2 na tabela nacional de singles, a Billboard Hot 100.

Green River

Em Março, aproveitando a espiral alucinante de criatividade de John Fogerty, que Stu Cook descreveria como «um medo quase mórbido de estar fora das tabelas»(12), o grupo regressa aos estúdios para gravar o seu terceiro álbum: Green River.  Mesmo antes de ele ser disponibilizado ao público, em Abril sai o single Bad Moon Rising/Lodi que viria a atingir o #2 da tabela nacional e em Julho, Green River/Commotion que, tal como o anterior, chegaria ao #2 e que assim se tornam automaticamente nos clássicos do álbum.  Quando um mês depois, o LP é posto à venda poder-se-ia pensar que pouco de realmente essencial haveria para motivar a sua aquisição mas, por mim que considero este álbum o melhor de todos os que os CCR fizeram, tirando a última música do álbum, Night Time Is The Right Time, uma cover de um blues que raia o medíocre, o resto está uns bons pontos acima do que considero como bom material, inclusive aquele que por muitos é dado como o pior tema do álbum: Sinister Purpose.

Claro que há várias maneiras de encarar a música dos CCR – não ligar à letra é a maneira mais simples de os reduzir ao seu papel de “banda de dança” que eram mas não só...  Quando John Fogerty escreve versos como Did you see the last war?/ Well, here I am again ou I can set you free/ Make you rich and wise, como fez em Sinister Purpose, até podemos embrutecer os ouvidos e a imaginação mas eles, os versos, estão lá e mesmo a nível da composição musical, acho que é das tentativas mais interessantes do grupo para, neste período, se afastar da sua própria norma o que é, ou deveria ser, de incentivar.  Tombstone Shadow que, como a anterior, ou I Put A Spell On You do primeiro álbum, ou Graveyard Train do segundo, ou mesmo Bad Moon Rising, aqui neste, está associada a essa temática do “sobrenatural, um tema tão normal na cultura bayou, e não deixa de, tal como Sinister Purpose, ter de ser lida nas entrelinhas e no contexto de toda a lírica de Fogerty expressa neste álbum: quando ele canta Ev'ry time I get some good news, Ooh/ There's a shadow on my back e Don't you do no trav'ling/ Fly in no machines, para além da incrível guitarra (em duplicado? Triplicado?) sempre presente, porque não o enquadrar com o que ele diz em Wrote A Song For Everyone (Met myself a comin' county welfare line/ I was feelin' strung out, hung out on the line/ Saw myself a goin', down to war in June/ All I want, all I want is to write myself a tune) ou em Bad Moon Rising (Hope you got your things together/ Hope you are quite prepared to die)? Claro, pelo menos para mim, que ele não fala do “halloween”…

Em Janeiro de 1969, Richard Nixon jurara sobre a Bíblia como trigésimo sétimo presidente dos EUA, depois de ter derrotado o candidato Democrata Hubert Humphrey que só tinha sido candidato porque o senador Robert F. Kennedy fora assassinado, e o independente (e preferido pela Contracultura) George Wallace.  Nixon que tinha um passado “sujo” (desde a sua participação no abjecto Comité de Actividades Anti-Americanas) ganhara com a proposta de internamente restaurar a “ordem” (numa mistura alucinante de elevadas taxas de criminalidade com não menores números de manifestações pacifistas) e de na Indochina conseguir uma “paz com honra”.  Ninguém esperava o que viria a acontecer mas sabia-se de antemão que a “solução” eleitoral, Nixon como presidente, tinha sido a pior das soluções.

Green River é um verdadeiro manifesto anti-Nixon e nisso é um reflexo do seu tempo.  A escrita, quer em música, quer em palavra, é um exemplo extraordinária da concisão a que a criatividade de John chegara – em pouco mais de vinte e nove minutos produzidos e arranjados por ele, aonde o supérfluo foi eliminado, está lá todo o “discursoblue-collar anti-Nixon.  Green River, a canção, com a sua mensagem pseudo-idílica (Well, take me back down where cool water flows, yeah/Let me remenber the things I don't know ou Barefoot girls dancing in the moonlight e Said, You're gonna find the world is smould'ring/ And if you get lost come on home to Green River)  pode (tentar) situar-nos nos pântanos “paradisíacos” da Louisiana mas a mensagem é nacional – Commotion (Talk up in the White House, talk up to your door/ So much going on I just can't hear) ou Cross-Tie Walker (I pulled out from the platform, nobody raised a hand/ And there were no tears of regret from my runaway train), assim o indica.  Um álbum extraordinário demais para uma banda de dança” e a crítica especializada rende-se, renitente, a isso.

Habitantes do Bayou Country

«Quando ouvi pela primeira vez os acordes iniciais de “Green
River” pensei “ó merda, outra canção bayou dos Creedence!”
mas a qualidade da guitarra de John Fogerty levou-me a
continuar (...) Com um fino senso de economia, ele retrata uma
paisagem Americana que é de algum modo mais velha e mais
nova do que a descrição do rock clássico da América de Chuck
Berry (...) eles estão a criar o mais vivo rock Americano
desde Music From Big Pink.» Bruce Miroff(13)

«Isso é outro tipo de coisa da época, mas nessa música [Bad
Moon Rising], eu estava apensa a pensar em termos de natural
e sobrenatural.  Ela foi inspirada por um filme antigo que vi
chamado The Devil And Daniel Webster, aonde o personagem
principal depois de prometer a sua alma ao diabo, beneficia de
muitas coisas – incluindo sobreviver a uma enorme tempestade
que deixou de pé a sua plantação de milho, enquanto a do seu
vizinho era arrasada.  Na altura só pensei:  “Uau, isso é
assustador.”» John Fogerty(14)

«Em Green River, Fogerty aperfeiçoou o som “assustador”
que invocava o sombrio bayou como uma metáfora para
o que estava a acontecer na América de Richard Nixon,
um lugar aonde ia sendo difícil dizer a diferença entre a
paranóia e o senso comum. Soando como algo vindo dos
profetas do Antigo Testamento, as imagens poéticas de
Fogherty conseguem um poder semelhante ao dos blues do
Delta de Robert Johnson. Quando os Creedence cantavam
sobre aquela “bad moon rising”, isso significava uma coisa
para a soldadesca no Delta do Mekong e uma outra coisa
para a multidão que no Denver Pop Festival tinha sido
atingida por gás três vezes antes da actuação final dos CCR.
Ninguém que escutava “Sinister Purpose” ou “Commotion”
em 1970, tinha qualquer problema em encontrar um ponto
de referência.»Craig Werner(15)


(Continua)