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sábado, 6 de novembro de 2010

Marvin Gaye ~ O Curandeiro Sexual (Parte IV)

I WANT YOU, SEXUAL HEALING

Em 1977 consegue finalmente chegar a um acordo com Anna sobre as condições para o divórcio, e um ano depois, em Novembro, declara-se falido – em tribunal acabará por comprometer-se a saldar as suas dívidas fiscais através de uma prolongada digressão que o levará à Inglaterra e ao Japão.  No regresso, actua no Hawai e por lá se deixa ficar, vivendo numa carrinha e levando uma existência de completa dependência da cocaína.

«“Eu estava basicamente a viver na praia,” relembra
Marvin. “(...) Eu precisava de estar longe do mundo
para recuperar as minhas forças. Isso foi apenas uma
fuga tão boa como outra qualquer.” (...) “A rotina de
Marvin por lá,”, recorda Ken, “foi realmente algo.
Depois de se levantar pela manhã, ele tomava uma
boa dose do pior whisky, então fumava um charro bem
grosso, e em seguida, cheirava um pouco de coca. E
era assim que ele apenas começava o dia.”» – David
Ritz(11 pp.265/266)

Completamente sozinho – Janis separara-se dele em meados de 1979 depois de uma tentativa de o trazer de volta ao continente que acabaria por terminar com ele a apontar-lhe uma faca ao coração – e perseguido pelas autoridades por causa do não pagamento das suas obrigações fiscais, tenta suicidar-se mas não o consegue.  Num último esforço para dar um novo rumo à sua vida, muda-se para a Europa.  Primeiro Londres, mas rapidamente regressa aos velhos hábitos.  A situação deteriora-se com o divórcio de Janis, em Fevereiro de 1981, e é então que um amigo, Freddy Cousaert, lhe oferece uma estadia em Ostend, uma pequena cidade costeira belga, aonde acabará por levar uma existência pacata e saudável, recuperando assim o seu ego ferido.

«(…) ele encontrou consolo no ar salgado do mar e
trabalhou para regressar à sua boa forma, correndo
ao longo da praia e praticando boxe numa academia
local. Ele começou a trabalhar num álbum de regres-
so, num estúdio próximo, que se tornaria num suces-
so internacional e, o mais importante, ele parou com
o uso de drogas.» – Gregory Katz(16 p.2)

«Vim para a Bélgica não para me retirar mas para
reagrupar as minhas armas para um novo assalto.»
Marvin Gaye(4 p.23)

Em 1982 deixa a Motown e assina com a Columbia Records.  Pouco depois inicia uma digressão por Inglaterra e, na sequência dela, uma pelos EUA, e é o regresso à cocaína e à loucura.

«A digressão terminou em Agosto de 1983. Em No-
vembro, Marvin mudou-se para a casa dos pais (...).
Tentou também resistir à sua dependência de drogas.
“Ele viu o que aquilo lhe fizera, como ele ficou pa-
ranóico”, disse Banks. “A sua mãe e todos os outros
– e até mesmo ele – se assustaram com todos os tra-
ficantes de drogas em meados de Novembro.» – Ben
Fong-Torres(5 p.16)

Marvin na época

O regresso a casa irá ser-lhe fatal – o estilo de vida que levava, colidia com os princípios do seu pai que se continuava a reger pelo mais básico fundamentalismo religioso e moral...

«Marvin não tinha vivido na mesma casa com o pai
durante um quarto de século. Além da herança de in-
fância e os conflitos sobre o uso de drogas, sexo e
pornografia, (...) outras questões agudizavam o rela-
cionamento tenso entre eles. (...) Apesar dos homens
conseguirem evitar-se um ao outro, maior parte do
tempo, a tensão física era palpável – tanto que Mar-
vin Sr. disse à sua filha Jeanne, “Se ele me toca, ma-
to-o.”» – David Krajicek(15 p.21)

Um dia antes do seu quadragésimo quinto aniversário, a 1 de Abril de 1984, Marvin Gaye, Jr. é morto à queima roupa por Marvin Gay, Sr.

«“Eu sabia quando ouvi, que era a vontade de Deus.
Eu pensei sobre isso, que estranha e ironicamente, a
própria pessoa que o ajudou a vir a este mundo...  Deus
teve essa mesma pessoa para o tirar deste mundo. Há
provavelmente alguma coisa nisso.”» – Anna Gordy
(5 p.16)

Depois de Let’s Get It On, Marvin virá a publicar mais quatro álbuns de originais: I Want You (1976), Here, My Dear (1978), In Our Lifetime (1981) e Midnight Love (1982); todos eles fortemente influenciados pela música funk que, na altura, se aproximava indistinguível do seu parente rítmico mais pobre, o disco, o que levaria alguém a classificá-los como música para o fim das noites de sábado.  Na minha opinião, os trabalhos mais honestos serão os dois do meio e por esta ordem:

As capas dos quatro álbuns

Here, My Dear é, seguramente depois de What’s Going On, o trabalho mais “sério” de Marvin Gaye – pelo menos no que toca ao seu “propósito”.  Nascido do acordo judicial de divórcio com Anna Gordy, Marvin reflecte nele uma série de pensamentos e sentimentos em torno da sua vida amorosa, como qualquer comum mortal, mas não só – há também, por exemplo, abordagens à sua fé religiosa e à relação dela com os seus “pecados” (a dependência da coca e todas as obsessões com sexo), em Time To Get It Together, mas também há a vida numa futura era espacial com A Funky Space Reincarnation.  O seu grande defeito é, quanto a mim, a sua extensão: se tivesse sido reduzido a um único disco poderia ter sido uma sua terceira contribuição marcante para a música pop.  A sua duração é tanto mais estranha quanto o seu propósito inicial, mesquinho, de fazer um álbum “preguiçoso e mau”... para que a sua ex-mulher (Anna) não usufruísse do seu trabalho.

«Desprezado pela crítica e largamente ignorado pelo
público, a suíte de dois LPs é no entanto, incrivelmente,
um trabalho bem sucedido, um monólogo interior com-
plexo em que a sensibilidade e o alcance de, digamos,
Scenes From A Marriage, de Ingmar Bergman, é tradu-
zida para música soul.» – David Ritz(4 p.23)

In Our Lifetime que acabará por ser publicado contra a sua vontade, provocará a sua ruptura final com a Motown – supostamente, para além de umas misturas diferentes e a inclusão de uma música não aprovada por ele (Far Cry), havia ainda a questão do título não ter um ponto de interrogação no seu final, como ele o exigia.  Evidentemente que é um álbum “inacabado”, como Marvin várias vezes o afirmou, mas mesmo assim superior, na sua diversidade sonora ou procura de novos caminhos, a I Want You.  Praise, dedicada a Stevie Wonder, e Life Is For Learning são dois temas agradáveis e que, como abertura do álbum, prometem algo mais do que se virá a verificar. Love Me Now Or Love Me Later, a segunda música do lado dois do disco, é um excelente exercício lírico e vocal com uma guitarra blues não menos excelente – o melhor tema do LP.  Heavy Love Affair, um funk com uma batida contagiante mas sem concessões, termina, quanto a mim, este álbum.

«In Our Lifetime é uma montagem densa – por vezes de
tirar o fôlego – de temas funk e soul, na qual Marvin
Gaye reflecte sobre arte, amor, karma, e o Armagedão.
Como em todos os seus trabalhos de estúdio desde o de-
finitivo What’s Going On, o tenor fluido que é Gaye tece
através da produção de texturas complexas, a sugestão de
um monólogo interior prolongado.» – Stephen Holden
(17 pp.59/60)

«Devemos estar agradecido pela inacabada obra-pri-
ma. Embora as canções estejam incompletas, elas do-
cumentam o regresso de Marvin às preocupações espi-
rituais de What’s Going On. (...) “In Our Lifetime” re-
 nente. (...) A ilustração da capa, idealizada pelo can-
tor, mostra dois Marvins frente a frente, sentados em
tronos acima das nuvens, enquanto explosões nucleares
devastam a América. Um Marvin tem asas, uma auréola
e uma pomba, o segundo Marvin tem chifres e veste o
manto de Satanás. Ele dividido joga uma partida de xa-
drez, tal como Marvin, (...) acreditando que Deus joga
xadrez com o homem.» – David Ritz(4 p.23)

Sobre os restantes dois álbuns apenas gostaria de dizer que se tratam de trabalhos menores com momentos altamente inspirados de “música sexual” (por exemplo, I Want You (Vocal) ou Feel All My Love Inside, de I Want You, e Sexual Healing em Midnight Love), o que não chega para serem considerados no conjunto da obra de Marvin Gaye.

«A música gospel cantava sobre a salvação através
de Deus, a música soul sobre o poder do amor. A-
vançando um passo mais no mundo secular, o dis-
co traduziu “amor” como “sexo”. Em geral, os gran-
des cantores de soul tinham sido capazes de demons-
trar esse ponto. O curandeiro sexual Marvin Gaye
queria que o seu clássico de espiritual sedução “Let’s
Get It On” (também gravada numa versão gospel in-
titulada “Keep Gettin ‘It On”), tivesse seguimento
com uma música a que chamou de “Sanctified Pus-
sy” (felizmente re-titulado “Sanctified Lady” quando
foi finalmente lançado).» – Craig Werner(3 p.208)

«A cocaína, dos quais Gaye foi um importante consu-
midor, é sabido reduzir o amor à luxúria. Daí que
partes da sua produção consistirem não em canções
de amor, mas em faixas de sexo (...). Marvin Gaye ti-
nha uma voz sedutora que vale a pena ouvir mesmo
quando as vocalizações em fiação e os clichés líricos,
efectivamente, cantam sobre nada – o que abrange
uma grande parte da sua carreira.  A enaltecida esté-
tica da foda-coca que orienta muito do seu trabalho,
irá captar futuros ouvintes, como decadente ou profé-
tica, dependendo de como a história decorrer.» – Ian
MacDonald(18 pp.40/41)


________________________________

(1)   Berry Gordy Jr Biography. The Inductees. The Rock and Roll Hall of Fame and Museum, Inc.;
(2)   ALETTI, Vince. “The Motown Story: The First Decade”. Rolling Stone, Nr. 82, May 13, 1971;
(3)   WERNER, Craig. “A Change Is Gonna Come. Music, Race & The Soul Of America”. 1998;
(4)   RITZ, David. “A Voice Set Free”. Rolling Stone, Nr. 421, May 10, 1984;
(5)   FONG-TORRES, Ben. “Marvin Gaye 1939-1984. From Sideman to Superstar”. Rolling Stone, Nr. 421, May 10, 1984;
(6)   CAHILL, Tim. “The Spirit, The Flesh And Marvin Gaye”. Rolling Stone, Nr. 158, April 11, 1974;
(7)   The Top 100. The Best Albuns of the Last Twenty Years. 10. What’s Going On”. Rolling Stone, Nr. 507, August 27th, 1987;
(8)   The 100 Best Singles Of The Last 25 Years. 14. What’s Going On”. Rolling Stone, Nr. 534, September 8th, 1988;
(9)   EDMONDS, Ben. “Marvin Gaye: What’s Going On and the Last Days of the Motown Sound”. 2001;
(10) EDMONDS, Ben. “A Revolution In Sound & Spirit: The Making of What’s Going On”. Sleeve Notes CD Deluxe Edition. 2002;
(11) RITZ, David. “Divided Soul: The Life of Marvin Gaye”. 2003;
(12) LANDAU, Jon. “Let’s Get It On”. Rolling Stones Nr. 149, December 6, 1973;
(13) EDWARDS, Gavin. “Prime Marvin. Back-to-basics versions of Gaye’s soul masterpieces.” Rolling Stones Nr. 914, January 23, 2003;
(14) GEORGE, Nelson. “Let’s Get It On”. Sleeve Notes CD. 1994;
(15) KRAJICEK, David. “The Life and Death of Marvin Gaye”. truTV.com. Turner Broadcasting System, Inc.;
(16) KATZ, Gregory. “Troubled Man”.  AmericanWay. The Magazine of American Airlines. Issue: June 15, 2006;
(17) HOLDEN, Stephen. “In Our Lifetime”. Rolling Stones Nr. 340, April 2, 1981;
(18) MACDONALD, Ian. “The People’s Music. Marvellous Marvin Reconsidered”. 2003;

o

Marvin Gaye ~ O Curandeiro Sexual (Parte III)

LET’S GET IT ON

Marvin Gay, Sr. – sim, Gay sem o “e” no fim que esse foi acrescentado pelo filho por razões que julgo serem evidentes… – era um daqueles pais que misturava ignorância com religião e prolongava a tradição como a tinha recebido: as regras que ditava eram para serem cumpridas sob risco de punição física, e isso acontecia frequentemente.

«O pai dele era um pastor pentecostal, um disciplina-
dor virtuoso.» – Ben Fong-Torres(5 p.14)

«(...) o reverendo Gaye abriu [a porta], de Bom Livro
na mão. Conversámos durante horas. Fiquei fascinado
com a delicadeza dos seus dedos e a extensão do seu
conhecimento bíblico. Fisicamente, era diminuto mas
vigoroso. (...) Ele falou do seu amor a Jesus e aos ju-
deus. (...) – intenso, articulado, com autoridade.»
David Ritz(4 p.21)

«Pai e filho brigaram com frequência durante a juven-
tude de Marvin Jr. “Marvin disse-me que nunca teve
do seu pai o amor que ele queria”, disse [o advogado
Curtis] Shaw. “Ele disse-me, ‘Ele não aceita o meu a-
mor’”» – Ben Fong-Torres(5 p.16)

Gay, Sr. dizia que amava o filho. A mãe, Alberta, não se lembrava de que assim fosse – ao jornalista/escritor David Ritz, ela confessaria: «O meu marido nunca quis o Marvin, (...) nunca gostou dele (...) e o que era pior, era que queria também que eu não amasse o Marvin. O Marvin não era muito crescido quando se apercebeu disso.»(11 pp.6/7) – e Gaye, Jr. sempre dirá que amava o pai e que lhe agradecia, acima de tudo, tê-lo introduzido no “amor de Jesus”.

«“Uma das razões porque amo o meu pai”, disse Mar-
vin num dos seus momentos de pregação, “é porque ele
me ofereceu Jesus. Ele fez Jesus viver em mim, e essa é
razão suficiente para lhe estar agradecido para o resto
da minha vida.”» – David Ritz(11 p.151)

Mas nos momentos difíceis acabaria por culpar Gay, Sr. e o fundamentalismo religioso da sua igreja, por todos os problemas mais íntimos que lhe infernizavam a existência de adulto: os constantes episódios de impotência sexual que o obrigavam a recorrer a práticas sexuais “anormais” e que mais tarde o iriam levar à então “droga do sexo”, a cocaína.

«A Anna ensinou ao Marvin certos truques – truques com
o seu corpo, truques de sexo» – Alberta Gay(11 p.281)

Depois de cumpridas as “obrigações” de gravar uma banda sonora para mais um filme desse intragável género cinematográfico que foi a Blaxpoitation – Isaac Hayes e Curtis Mayfield, dois dos seus mais “perigosos” (e originais) concorrentes tinham gravado com sucesso bandas sonoras para dois filmes desse género, respectivamente, Shaft e Super Fly, e ele não podia perder o andamento...) com Trouble Man (Dezembro de 1972), e de ter iniciado, contrariado, um álbum de duetos “motown sound” com Diana Ross que, rapidamente, se tornou em sessões de gravação separadas depois de ele se ter recusado a deixar de fumar marijuana no estúdio (Gordy ainda interveio pedindo-lhe que atendesse ao facto de que a “princesa da Motown” receava perder a criança ao que Marvin lhe respondeu que se o fizesse era ele que perdia a inspiração) – Diana & Marvin (Outubro de 1973) –, Gaye regressa aos estúdios a pensar no seu ego humilhado...

A capa do álbum Trouble Man

Let’s Get It On, composto e gravado entre Fevereiro e Julho, com muito material recuperado do arquivo, voltou a contar com os melhores músicos de estúdio da Motown durante as sessões quer em Detroit, quer nos novos estúdios em Los Angeles, assim como com a preciosa colaboração de David Van DePitte (um reconhecimento do seu extraordinário trabalho em What’s Going On) e de Ed Townsend (como co-produtor e co-autor dos temas do lado 1 do disco).  Publicado em finais de Agosto, voltou a trazer Gaye para as bocas do mundo.  Não tão bem recebido como What’s Going On, acabaria no entanto por receber críticas altamente favoráveis.  Em termos de vendas, atingiria o #2 das tabelas nacionais e o #1 nas tabelas afro-americanas.

«(...) ele continua a transmitir o mesmo grau de inten-
sidade, enviando-nos mensagens próximas do cósmico
enquanto eloquentemente enriquece as, por vezes, sim-
plistas letras. Mas isso não deve parecer surpresa vindo
do homem que canta “She makes my day a little brigh-
ter/ My load a little bit lighter/ She’s a wonderful one”
de um modo que nos torna difícil recordar se ele está a
cantar sobre Deus ou a mulher – e mesmo se ele sente
que haverá uma qualquer diferença.» – Jon Landau
(12 p.74)

A capa do álbum Let's Get It On

«Gaye expõe o seu manifesto nas notas da capa do dis-
co: “Faça o seu sexo, pode ser muito excitante se tiver
sorte. Espero que a música que aqui apresento o faça
ter sorte.” Então ele fez um disco de ambiente-sedução
perfeito.» – Gavin Edwards(13 p.68)

Ao fim de 37 anos a ouvi-lo, a tentação é a de reduzir o álbum ao excepcional tema que lhe dá o título.  Let’s Get It On é uma canção sem paralelo na música pop dos EUA creio que ainda hoje não há qualquer outro tema que atinja o seu nível de sensualidade.  Dengoso, desde a introdução da guitarra e da voz de Gaye, dificilmente haverá quem escape à magia do seu ritmo.  Marvin achava o lado 1 o mais apropriado para induzir ao sexo [diria ele: «“Eu gosto do lado do ‘Keep Gettin’ It On’.”»(6 p.43)].  Sim, se o tema-título é definitivo no introduzir de um ambiente propício à sedução, os restantes são a sua perfeita continuação.  Please Stay (Once You Go Away) e If I Should Die Tonight prolongam e reforçam esse ambiente – este último tema então é sublime com a sua roupagem a anos 50, num extraordinário trabalho de orquestração de David Van DePitte – e não creio que a reposição de Let’s Get It On, com Keep Gettin’ It On, seja inocente no seu propósito.  Claro que hoje não há o óbice de, como no tempo em que ele foi publicado, se ter de virar o disco para se ouvir a nostalgia romântica de Distant Lover ou o apelo sensual (pornográfico?) de You Sure Love to Ball e se quando chegar a Just to Keep You Satisfied ainda tiver o domínio necessário para lhe prestar alguma atenção... é porque o álbum não lhe diz mesmo nada – ouça antes Scorpions!  Este é um álbum adulto sobre sexo e amor feito por um homem em dor.

«“Quando ouvi pela primeira vez a canção na rádio,”
o pai de Marvin ri-se “Eu telefonei a Marvin a dar-lhe
os parabéns pela música, mas também lhe disse, Por
favor, por favor, não vás mais longe. É suposto seres o
filho de um ministro.”» – Tim Cahill(6 p.42)

Marvin na época

«Let’s Get It On era o prisma pessoal de Marvin so-
bre a intersecção do amor, paixão, abandono, roman-
ce e as dimensões físicas desses sentimentos. (...) Es-
te disco, cheio de reflexões de verões alegres juntos
e de bizarros momentos no escuro, é um testamento
da visão obsessiva de Marvin pela sexualidade, a sua
vontade de despir-se em público e perante Deus.»
Nelson George(14 p.7)

Durante a gravação do álbum, Gaye conhece aquela que viria a ser a sua segunda mulher: Janis Hunter, uma adolescente de dezassete anos – quando ele já ia nos trinta e três! – que praticamente terá sido empurrada pela sua mãe para os braços do cantor [«a mãe da rapariga “encorajou a relação” disse Gaye» – David Krajicek(15 p.13)].  Um ano depois estava grávida e deixava o liceu.  A sua ligação a drogas já na altura era considerável e Gaye, por sua vez, começara a algum tempo a consumir cocaína – a paranóia rapidamente se instalará entre eles.  Se com a Anna ele assumia uma atitude quase submissa, com Janis passaria ao papel de “senhor”: a violência doméstica passara a ser normal e para além disso, obrigava-a a ter aventuras com outros homens, e se ela não lhe obedecesse espancava-a, e se ela o fazia exigia-lhe relatos pormenorizados do que tinha acontecido, provocando-lhe uma profunda humilhação.

Marvin e Janis Hunter

«A Jeanne Gay disse, “O Marvin não apenas pedia à
Jan para ter casos, ele ficava zangado com ela quan-
do ela se recusava a obedecer-lhe e não lhe contava
as histórias dos casos que ele queria que ela tivesse.”
A sua mãe acrescentou, “Ele queria que a Janice fos-
se com outros homens. Então, sofria com as consequên-
cias. Ele queria sofrer.”» – David Krajicek(15 p.13)

«(…) os dois discos tomados em conjunto, dramatizam
rigidamente o que Gaye via como o conflito central da
sua própria vida: era ele o filho do pastor que queria
ser uma força positiva no mundo, ou um servo pecami-
noso do diabo?» – Gavin Edwards(13 p.68)